Vende-se deputado

Começou a triste temporada de compra e venda de parlamentares em Brasília. Com a “janela de transferências” de partidos aberta, o corre-corre atrás de deputados se acelerou. As ofertas, ao que tudo indica, inflacionaram. Por trás de tudo não há resquício de interesse público ou mesmo de orientação ideológica. O que rege o fenômeno é a busca pelo dinheiro e pelo poder.

 

A lógica é simples: segundo as regras, quanto mais deputados um partido tem no Congresso, maior é a sua fatia no fundo eleitoral e mais extenso o seu tempo de propaganda na TV. Então, seguindo estratégia vil e eleitoreira, um partido pode fazer ofertas aos deputados “insatisfeitos”, tirando-os de seus partidos atuais, em troca de recursos para a campanha de outubro. Ou seja, é a fome se unindo com a vontade de comer.

 

Atualmente, um deputado pode valer até R$ 2,5 milhões, dependendo de sua viabilidade eleitoral, segundo matéria da Folha de São Paulo. As tratativas ocorrem a olhos vistos, nos corredores e no plenário da Câmara. Todo mundo sabe quem está comprando e quem está à venda. Parece não haver limites para a cara de pau.

 

Mas o fenômeno não é de graça e nem inesperado. Foi tramado pelos próprios políticos. Trata-se de mais um efeito colateral de um sistema falido e do fundo eleitoral que drena quase R$ 2 bilhões dos cofres públicos para sustentar a corrida eleitoral. São recursos que poderiam ser utilizados para o financiamento da saúde ou da educação, mas, no final das contas, servem para dar continuidade a um círculo vicioso de manutenção do poder.

 

A troca de partido não é um pecado em si. Eu mesmo mudei de sigla quando percebi que a minha orientação ideológica já não coincidia com a bandeira do partido ao qual eu pertencia. Mudar de ideia, aliás, é o que nos move e nos tira da inércia. A questão é reconhecer se essas mudanças são próprias para um agente político. E se não são motivadas pura e simplesmente por dinheiro e poder. 

 

João Derly
Deputado Federal (Rede/RS)

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