Do outro lado da mesa - Entrevista para o Correio do Povo

Campeão mundial e um dos maiores nomes do judô no Brasil, João Derly prepara-se para assumir o cargo de secretário estadual de Esportes a partir deste ano

Foto: Ricardo Gusti
Foto: Ricardo Gusti

Quando encerrou a vitoriosa carreira como judoca, em 2012, ainda emocionado após a sua derradeira luta no tatame da Sogipa, em Porto Alegre, ele disse: “Achei que não seria tão difícil (abandonar a vida de atleta).  Acabou a competição, mas o esporte segue na minha vida”.

O desabafo, misto de promessa, se cumpriu. Acossado pelas lesões, João Derly não pôde mais competir e lutar profissionalmente a partir daquele dia, mas jamais abandonou o esporte. Foi eleito o segundo vereador mais votado de Porto Alegre em 2012 e, dois anos depois, chegou à Câmara Federal com mais de 100 mil votos, sempre empunhando a bandeira do esporte e da atividade física como ferramentas de educação e de inclusão social.

 

 Agora, foi escolhido para ser secretário de esporte e lazer do Rio Grande do Sul na gestão do governador Eduardo Leite. Ou seja, seguirá trabalhando na área, agora do outro lado do balcão. Os desafios fazem parte da carreira de um atleta profissional. Não foi diferente com João Derly, hoje com 37 anos.

 

 Porém, ele mesmo admite que a nova função é uma das mais importantes da sua vida, além de extremamente desafiadora. “O contexto das finanças do Estado, e, de maneira geral, de todo o Brasil, nos impõe uma realidade que impossibilita extravagâncias. É preciso ser extremamente eficiente na gestão dos investimentos, porque não são no volume que seria suficiente para democratizar o acesso ao esporte de base, por exemplo, que é o grande objetivo de uma secretaria de esportes de qualquer lugar do mundo.

Mas não vamos nos apequenar. Não será possível fazer tudo o que a gente pensa e deseja, mas será possível fazer muita coisa”, afirma o ex-deputado. Ele trabalha desde a virada do ano no 19º andar do prédio do Centro Administrativo do Estado. Apesar de continuar deputado federal até o final de janeiro, ele não retornará à antiga função. Permanecerá trabalhando em Porto Alegre e se tornará oficialmente secretário somente em fevereiro.

 

Assim, evita a nomeação de um deputado federal suplente, o que oneraria os cofres públicos. “Foi combinado com o governador Eduardo Leite, que achou uma boa ideia. Mas o trabalho já começou”, garante. A primeira tarefa, segundo Derly, será reorganizar a Secretaria de Esportes e Lazer, que volta a existir agora – na gestão de José Ivo Sartori, a pasta era conjunta com a Cultura. “A existência de uma Secretaria de Esporte significa que o tema volta a ser institucionalizado.

 

 A comunidade esportiva gaúcha tem que saber e sentir na prática que o esporte voltou a ser tema de governo, que está contemplado nos planos do novo governador. Por isso, vamos buscar construir uma política esportiva que contemple todas as manifestações esportivas, desde o esporte escolar até o de alto rendimento, passando pelo lazer e até pelo futebol de várzea, por exemplo”, afirma. Depois disso, o plano é fazer um mutirão para examinar as prestações de contas e confirmar o bom uso do dinheiro público repassado para dezenas de projetos de prefeituras e clubes do Estado desde 2012.

 

Atualmente, há mais de 250 projetos sem a homologação da prestação de contas na Secretaria. Em seguida, analisar os recursos disponíveis, que vêm, basicamente das Loterias Federais, repassado pelo Ministério do Esporte, e da Lei de Incentivo ao Esporte (Pró-Esporte RS), para estabelecer as prioridades. “Esporte não gasto, é investimento. Investir na promoção do esporte e no desenvolvimento de políticas esportivas para pessoas de todas as idades evita gastos com saúde e com segurança pública.

 

No curto prazo, vamos reativar alguns eventos que são importantes para a comunidade, como o Campeonato Estadual de Futebol de Várzea, que reunia milhares de atletas de atletas amadores e suas famílias, e o Jogos Intermunicipais do Rio Grande do Sul (Jirgs), que servem como estímulo para milhares de jovens atletas”, lembra. Depois disso, o trabalho segue com medidas estratégicas, incluindo alterar alguns pontos da Lei de Incentivo ao Esporte do Rio Grande do Sul, que tem sido fundamental para amparar uma série de projetos esportivos.

 

Outro ponto é promover uma melhor utilização do Centro de Treinamento Esportivo do Estado (Cete). “Há uma série de iniciativas que precisam ser tomadas para alavancar o financiamento do esporte. Uma delas é mexer no Pró-Esporte RS. Precisamos avaliar a possibilidade de diminuir o percentual de “retorno” ao Fundo Estadual do Esporte dos atuais 25% para algo em torno de 10% ou 15%. Só isso, já movimentaria a cadeia produtiva do esporte, incentivando as empresas a investirem”, afirma.

 

O trabalho está no começo. E Derly sabe que atribuições como a que acaba de receber podem macular a imagem de atleta vitorioso construída em 20 anos sob o tatame. Isso já aconteceu com outros que aceitaram essa transição, mas não assusta o bicampeão mundial. “Encaro essa responsabilidade da mesma forma que assumi outras ao longo da minha vida. Sou movido a desafios. Estou motivado e cheio de planos. O que me aproximou da política foi o desejo de democratizar o acesso ao esporte, porque acredito que ele é uma poderosa ferramenta de educação e ascensão social, algo que ficou ainda mais vivo a partir de agora”, encerra.

O INÍCIO DA CARREIRA SE DEU POR ORIENTAÇÃO MÉDICA

Foto: CP Memorial
Foto: CP Memorial

Não foi exatamente o apego ao esporte ou uma vocação prematura que levou o pequeno João Derly para os tatames. Pelo contrário. Foi uma orientação médica que levou o menino, que sofria de asma, a frequentar as aulas de judô na Escola Estadual Rio Branco, na zona norte de Porto Alegre. Era 1988 e, em Seul, Aurélio Miguel tornava-se o primeiro judoca campeão olímpico do Brasil. “Vi pela televisão e nunca mais esqueci. Queria ser eu ali ouvindo o hino nacional e colocando a medalha”, lembra o agora ex-judoca, mais de 30 anos mais tarde.

 

Por coincidência, desde o primeiro contato do pequeno judoca com a modalidade, seu treinador foi o mesmo: Antônio Carlos de Oliveira Pereira, o Kiko. Já nos primeiros treinos, Derly mostrou aptidão e acabou encaminhado pelo técnico para a Sogipa, onde começou a treinar. Os títulos nacionais e até internacionais de categorias de base começaram a aparecer logo, levando o gaúcho à seleção brasileira da modalidade com apenas 15 anos. Em 2000, Derly conquistou medalha de ouro no Campeonato Mundial Júnior, disputado na Tunísia, uma prévia da carreira que começava a se consolidar. “Foi uma conquista importante, que ajudou a divulgar o nosso trabalho. Geralmente, quem é campeão mundial júnior acaba conquistando títulos importantes na categoria adulto. Por isso, essa medalha é tão importante na minha carreira”, diz.

 

 Em 2003, porém, após uma participação conturbada nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo, Derly foi obrigado a mudar de categoria. Deixou a ligeiro (até 60kg) e foi para a meio-leve (até 66kg). Porém, não houve tempo de adaptação e ele acabou ficando de fora dos Jogos Olímpicos de Atenas. “Foi um baque. Pensei até em parar, mas a força da família foi fundamental para seguir a caminhada. Naquele tempo, o sistema ainda era muito amador e, ficar de fora de um evento como a Olimpíada, era muito complicado”, relembra. As grandes conquistas começaram a partir do trauma. Em 2005, apenas alguns meses após a Olimpíada, ele começou a treinar visando o Mundial, que seria disputado no Cairo. Ele garantiu a vaga na seletiva nacional e foi para o Egito como um azarão, pouco conhecido pelos adversários. Com um desempenho surpreendente, Derly conquistou a medalha de ouro batendo, na final, nada mais nada menos que Masato Uchishiba, o então campeão olímpico da categoria.

 

Além da medalha de ouro, o judoca foi eleito o melhor atleta daquela competição. Dois anos mais tarde, o Mundial foi disputado no Rio de Janeiro. E diante da torcida brasileira, Derly conquistou o bi mundial, feito só recentemente igualado, por coincidência por outra judoca da Sogipa, Mayra Aguiar. Então, o atleta, que começara a praticar esportes por causa da asma, tornara-se um dos principais atletas do Brasil. Foi com essa expectativa que ele viajou para Pequim para representar o Brasil nos Jogos Olímpicos. Ele passou pela primeira luta, mas esbarrou no segundo confronto, contra o português Pedro Dias, marcado por uma série de decisões contestáveis da arbitragem. Naquela época, os esforços para manter a forma e a rotina de treinos já cobraram a conta. Derly sofria com lesões repetidas, que tiravam a sua competitividade e o afastavam dos treinos. Após uma sequência de cirurgias, ele decidiu encerrar a carreira diante dos amigos em uma competição no ginásio da Sogipa em 2012.

 

 

 

Entrevista publicada em 04/01/2019 no jornal Correio do Povo.

Em 2007, João Derly retornou do Rio de Janeiro com a medalha de ouro conquistada nos Jogos Pan-Americanos. Foi recepcionado com festa e desfilou, com outros integrantes da equipe de judô da Sogipa, sobre um caminhão de bombeiros. Ele precisou encerrar a carreira em 2012 após uma série de lesões.

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