O primeiro projeto é arrumar a casa - Entrevista para o Metro Jornal Porto Alegre

Secretário de Esporte e Lazer do governo Eduardo Leite, ex-judoca fala sobre os seus planos para a pasta.

Secretário de Esporte e Lazer do governo Eduardo Leite, ex-judoca fala sobre os seus planos para a pasta
Secretário de Esporte e Lazer do governo Eduardo Leite, ex-judoca fala sobre os seus planos para a pasta

Extinta durante o governo de José Ivo Sartori, a Secretaria do Esporte ressurgiu com o governador Eduardo Leite. À frente da pasta estará o ex-judoca João Derly. O novo secretário falou ao Metro sobre suas propostas para o esporte gaúcho. Antes de tudo, segundo ele, será preciso colocar a casa em ordem.

 

Como é iniciar uma secretaria quase do zero?

 

 Para iniciar, é bom lembrar a atitude do governador de resgatar o esporte. Não é uma questão de abrir uma secretaria, mas há o sentimento de que o esporte está sendo visto e está interligado com várias pastas. Talvez seja a pasta que mais dialoga com as outras. É simbólica essa ação do governador. Principalmente na questão de segurança pública. É um ponto ruim do nosso estado. Se não tiver a boa prática na prevenção, não adianta trabalhar só na questão prisional e do efetivo. Claro que é fundamental, mas é importante trabalhar atividades esportivas e educacionais que podem gerar um grande efeito na sociedade. É um desafio enorme pegar a secretaria do zero, reorganizar o que era um departamento na Secretaria da Cultura. Perdeu-se muito da memória tanto da extinção da Fundergs (Fundação de Esporte e Lazer do RS) quanto da secretaria. Estamos tentando resgatar isso. Assustou bastante o passivo que tem, tanto na prestação de contas do Pró-Esporte (programa de incentivo ao esporte) e da extinção da Fundergs.

 

Tem ideia do tamanho do passivo?

 

Pelos números que recebi, o da Fundergs é em torno de R$ 2 milhões ou um pouco mais. As prestações de contas estão bem atrasadas. Vamos fazer uma força-tarefa para conseguir limpar isso.

 

 

Como investir com o atual momento que vive o RS?

 

Temos que ter a habilidade de fazer parcerias. Nos primeiros seis meses, não deve acontecer nada mesmo, por causa dos processos licitatórios, que são morosos. Para efetivar os eventos que o estado tem obrigatoriedade de executar, vamos limpar o que ficou para trás para ir em busca de recursos. Vamos trabalhar muito com a lei federal, buscando as autarquias do estado para ter projetos com capitação local. Neste último ano, tive o privilégio de poder enviar R$ 4,5 milhões de emenda parlamentar. Vai dar fôlego para esse primeiro ano de cortes. Não podemos inchar a máquina. Temos que ser eficientes e utilizar bem os pequenos recursos que temos. Temos que acertar na mosca.

 

Para a execução das ações, qual a importância de se desvincular da Cultura?

 

Nos primeiros meses, é ajeitar a casa. Essa memória da secretaria se perdeu. É ruim porque muita coisa do passado precisa ser resgatada. A extinção da Fundergs prejudicou o desenvolvimento da secretaria. Quando se tem a secretaria se pode buscar parcerias. O COB (Comitê Olímpico do Brasil) está se demonstrando parceiro e quer conversar com o governador, buscando parceria para trazer eventos. Este mês, a Federaclubes virá ao estado. Vamos ouvir muito as sugestões. O esporte ficou com uma demanda reprimida por muito tempo. Ele não foi escutado. Nas eleições, tivemos um momento de conversa com o Eduardo [Leite] por três dias, convidamos pessoas e entidades, [o local] lotou. Foram mais de 120 pessoas e teve gente que não conseguiu entrar. É a ânsia do segmento de falar. Foi muito tempo sem ter voz. Temos que tentar soluções a longo prazo.

 

Qual será o foco inicial?

 

Temos que ter o esporte por inteiro, paralímpico, de base, de rendimento e alto rendimento e de lazer. Temos alguns pontos importantes. Primeiro é acabar com o passivo. Segundo, fazer os eventos que o estado tem a missão de fazer e acabou não executando no ano passado, como o Gauchão de Várzea e o Jirgs (Jogos Intermunicipais do RS). Queremos executar isso no segundo semestre.

 

O Pró-Esporte parou de repassar verbas. Em que situação está?

 

Ele está digitalizado, o que facilita um pouco para que as entidades possam se inscrever e participar do programa. Estamos pensando em dividi-lo em editais, parecido como o Comitê Brasileiro de Clubes faz. Vamos tentar dividir em editais para facilitar a prestação de contas. Ideal é preparar editais em outubro para facilitar os do ano seguinte. Como estamos atrasados, queremos liberar até o segundo semestre deste ano. Não podemos travar. Ficou travado por um bom tempo. O Pró-Esporte tem um fundo que desde 2012 não vinha sendo utilizado. Ano passado foi utilizado R$ 500 mil. Teve saques do governo, quase zerando a conta.

 

Faz tempo que o RS não recebe eventos, fora futebol. O que se pode fazer?

 

A preocupação é que não temos ginásios. Temos oportunidades de trazer grandes eventos, pois têm retorno. Os Jogos Universitários Brasileiros deixam na cidade sede R$ 5 milhões. Move toda a economia. É bom ter eventos. Temos a oportunidade de trazer eventos maiores. Mas não temos ginásios que atendam às demandas mínimas. Nossos ginásios são o Tesourinha e o Gigantinho, que não atendem demandas mínimas.

 

Do teu ponto de vista, quem é responsável pela formação do atleta?

 

Não temos definido nenhum sistema e um plano nacional. Vamos retomar as conferências do esporte no estado e forçar as nacionais. Quando fui deputado, apresentei um anteprojeto ao ministério de um plano nacional para distribuir melhor as atribuições de estado, município e União. Nosso sistema ainda é muito voltado a clubes. Temos um pouco de universidades, mas quem coloca o maior número de atletas nos Jogos Olímpicos e mundiais são os clubes. Às vezes, [o atleta] tem início no próprio clube, às vezes na escola. Cada um tem que dar sua contribuição. Não vejo problema de o esporte estar na escola. Quem tem talento pode ser direcionado para uma prática mais orientada. Tem que acontecer, não importa onde, tem que dar oportunidades. Se o poder público tiver a oportunidade de fornecer será um ganho grande.

 

É possível fazer um bolsa atleta estadual?

 

 Não sei se teremos pernas para fazer isso nesta gestão. Num primeiro momento é muito difícil. Seria uma boa ideia. É a única fonte de renda para muitos atletas. Não aproveitei isso. Eu dava aula de judô para me manter.

 

Qual modelo de gestão esportiva que tu gostarias de seguir?

 

Temos muitos bons modelos. É preciso ver o que se adequa melhor. A China tem um modelo muito legal. Tem iniciação na escola. Se foi detectado um talento, a criança é direcionada para uma escola com técnicos da modalidade. Se são atletas de mediano para bom [nível], vão para a Universidade do Esporte, onde estão os principais nomes do esporte da China. Dá para citar o sistema dos EUA, mas não sei se cairia bem aqui. Tem o do Canadá, que é parecido com o nosso. Trabalha não só o alto rendimento, mas o esporte para toda a vida. Fazendo com que se massifique a atividade física, não fique voltado só aos resultados. Para que todos façam algum esporte e quem tiver talento segue o seu caminho.

 

Qual o primeiro projeto que gostarias de pôr em prática?

 

O primeiro projeto é arrumar a casa. Essa é a grande missão. Ouvir bastante para depois colocar na rua muitas ações. Que o povo gaúcho possa receber um alento.

 

 O que a experiência como atleta te traz para esse momento como secretário?

 

Ajuda muito. Ajuda a gente como ente político a dedicação, não temos medo de repetição. É desafiador, desperta a vontade de vencer, de fazer boas coisas. Tenho a experiência de ter vivido as dificuldades que vou escutar. Tenho boa relação com todos os segmentos. Temos que institucionalizar o esporte. Temos que acabar com o eterno recomeçar.

 

O que é mais difícil: ser campeão mundial ou secretário de Esporte?

 

 Os dois têm suas dificuldades. Ser campeão do mundo são poucos. Fui o sétimo no mundo a ser bicampeão do mundo.

 

Valter Junior

 

 

Publicado em: 14/01/2018 - Metro Jornal Porto Alegre

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